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Causos de metrô

quinta-feira, agosto 6th, 2009

… Então, no começo dessa semana um cara entrou no metrô e derrubou um livro. Fui ajudar o cara, peguei o livro e entreguei pra ele – foi quando percebi que era o mesmo livro que eu estava lendo. Daí trocamos umas palavras e eu disse brincando: “cuidado que o principal deve morrer no final!”, demos risadas e desci na estação Ana Rosa.

Adivinha?

Valéria, Zoroastro e a Parada Gay

terça-feira, agosto 4th, 2009

Valéria acordou, lavou três vezes a mão, começando pela direita. Tocou todos os xampus com a ponta do dedo. Tomou banho e saiu, trancando a porta e checando três vezes se ela estava realmente fechada.

Valéria mora a um quarteirão do metrô, mas nunca andou um quarteirão até o metro. Ela tem que seguir dois quarteirões pra baixo, um em diagonal em direção ao centro, pegar uma viela e sair na Avenida. Porque não gosta de andar por ruas que só tem calçadas pretas.

Ela contou exatos 1073 passos até a frente do prédio da sua irmã, uma praça bem perto da Avenida Paulista – o que é bom, pois se fosse um número par ela teria que refazer o caminho. Chegou muito, muito cedo, pois às vezes demorava horas para acertar o número correto de passos ou simplesmente perdia a conta e tinha que recomeçar. Estava bonita, cheirosa e heterossexual demais para uma Parada Gay, mas família é família e ela tinha orgulho de sua irmã mais velha, homossexual até o último CD de música da Cassia Eller.

Lá chegando encontrou um rapaz mediano. Nem alto nem baixo, nem gordo nem magro, nem rico nem pobre, não era simpático ou antipático. Marcava profundamente as pessoas só pelo nome: Zoroastro, do persa Z?????????.

Não é fácil esquecer alguém com esse nome.

Zoroastro, assumindo sua posição de rapaz mediano, era contra tudo que era diferente. Não inaceitavelmente contra. Só não era a favor.

Nesse dia ele havia combinado com João, seu colega de classe da faculdade de administração (uma faculdade bem normal, cheia de gente normal), de fazer um pequeno movimento contra os movimentos à favor de coisas assim, diferentes.

Foi assim que Valéria encontrou Zoroastro. Como ele não estava usando nada verde, ela imediatamente simpatizou com ele, e assim começaram uma agradável conversa:

- Poxa, nunca te vi lá na faculdade! Como você ficou sabendo do movimento?
- Ué! Todo mundo está sabendo!

Zoroastro não sabia que seu movimento bestinha tinha se espalhado de tal maneira. Mas uma análise básica de como as pessoas usam o termo “todo mundo” livremente o fez crer que estava frente a frente com uma exagerada.

Valéria ficou decepcionada por descobrir que Zoroastro era gay. E ainda um tão ativo na comunidade! Organizando movimentos e tudo. Mas é a vida.

Conversaram por horas, e cada vez mais Zoroastro se convencia que uma menina tão normal só poderia ser a mulher de seus sonhos; e cada vez mais Valéria se convencia que todos os homens bons estavam comprometidos, ou – obviamente – eram gays.

Foi quando a irmã de Valéria chegou. Com sua namorada.

Zoroastro só tomou susto igual quando sua mãe o chamou pelo nome pela primeira vez. Várias perguntas circularam a cabeça de Zoroastro:

“A irmã de Valéria é gay? Será que a Valéria é também? Como eu não percebi? Será que ela acha que sou gay?” e finalmente, “Gays não deveriam se vestir bem?”.

Zoroastro, notando que a irmã de Valéria era gay, assumiu que pessoas diferentes só poderiam andar com pessoas diferentes. Ou no caso, iguais umas as outras, só diferentes dele. Ou não. Enfim, filosofia não era seu forte, ou mesmo tomar boas decisões sobre pressão, e com medo de que Valéria se afastasse por ele ser diferente… Ou igual… Ou homossexual… Espera.

Com medo de que Valéria se afastasse dele por ele não ser igual a irmã dele, e assim, diferente de todo mundo que era normal… Ou diferente… Ou heterossexual. Espera. Com medo de não ficar mais perto de Valéria, e notando que João – seu amigo – se aproximava, saiu inadvertidamente do armário:

- Esse é meu namorado! João!

João estranhou. Se ele era gay, o que a namorada dele ia pensar?!

- … er… oi… amor?

Zoroastro estranhou. Pô. Amor?

Valéria complementou: “Ah, bacana! Assim minha irmã finalmente vai ter com quem sair. Eu só vim pra dar apoio moral!”

Zoroastro preocupado: “Não entendi”

Valéria “Eu sou hetero”

Zoroastro com os olhos arregalados, pasmo, apertou a mão de João entre as suas e segurou um grito. Quando se lembrou de respirar, gemeu: “Ah”

Valéria “Porque?”

Zoroastro “askdnasmkdas asdmksa”

Valéria “…”

Zoroastro limpa a garganta, engole um sapo boi, dá o melhor sorriso que pode e diz “Suuuuper legal”.

Quando está quase se recompondo e lembra que está de mãos dadas com João, ele percebe que se passar por homossexual é o mais longe que ele jamais foi por uma mulher. E pensa três coisas. 1. Como uma mulher como Valéria, tão normal, vai gostar dele um dia; 2. Porque ela está vigiando a calçada preta do outro lado da rua e 3. Será que João é gay?

Foi quando, ao longe, Zoroastro avistou seus amigos. Eles estavam vindo em sua direção, ele nem percebeu que já era hora do tal movimento contra movimentos a favor de coisas diferentes começar! E agora?

Almoço, livros, casa, cozinha e roupa lavada.

terça-feira, fevereiro 10th, 2009

Ligar. Falar. Ameaçar. Desculpar. Marcar.

Ligar. Encontrar. Abraçar. Abraçar. Rir. Andar.

Esperar. Sentar. Almoçar.

Almoçar. Almoçar. Almoçar.

Rir. Fofocar. Beber. Rir. Comer.

Falar. Falar. Falar.

Pensar. Compreender. Divertir. Prometer.

Pensar. Sonhar.

Andar. Andar. Abraçar.

Abraçaaaaaaaar.

 

Without You

 Ooo. you make me live
whatever this world can give to me
It’s you, you’re all I see
Ooo, you make me live now honey
Ooo, you make me live
You’re the best friend
that I ever had
I’ve been with you such a long time
You’re my sunshine
And I want you to know
That my feelings are true
I really love you
You’re my best friend
Ooo, you make me live
I’ve been wandering round
But I still come back to you
In rain or shine
You’ve stood by me, girl (!)
I’m happy, happy at home
You’re my best friend.
You’re the first one
When things turn out bad
You know I’ll never be lonely
You’re my only one
And I love
The things that you do
You’re my best friend
Ooo, you make me live.
I’m happy, happy at home
You’re my best friend
You’re my best friend
Ooo, you make me live
You, you’re my best friend.

se uma árvore cai na floresta e não há ninguém para ouvir, ela produz algum som?

quarta-feira, agosto 6th, 2008

Ele desceu do metrô na estação L’Enfant Plaza e encostou-se numa parede ao lado de uma cesta de lixo. Por quase todos os critérios, era um sujeito que não chamava a atenção: um homem branco, mais ou menos jovem, vestindo jeans, camiseta de manga comprida e boné do time de beisebol Washington Nationals. De uma caixa, ele tirou o violino. Deixando a caixa aberta no chão, na frente dos pés, teve o cuidado de plantar ali algumas notas de 1 dólar, e várias moedas, para atrair mais dinheiro. Girou o corpo, para ficar de frente para o fluxo dos pedestres e começou a tocar.

Eram 7h51 da manhã, da sexta-feira, 12 de janeiro, hora do rush matinal. Ao longo dos 43 minutos seguintes, enquanto o violinista executava seis peças clássicas, 1.097 pessoas passaram à sua frente. Quase todos estavam a caminho do trabalho que, no caso da grande maioria, era um emprego público. A L’Enfant Plaza fica no núcleo da área de Washington ocupada pela administração federal, e ali transitam burocratas de nível médio, com os seus títulos um tanto indeterminados e estranhamente intercambiáveis: analista de projeto, gerente de iniciativa, programador de orçamento, especialista, consultor, supervisor.

Cada um dos passantes precisava fazer uma escolha rápida, uma escolha habitual para os usuários do transporte coletivo em qualquer área urbana, onde artistas de rua fazem parte da paisagem: parar e escutar? Acelerar o passo com uma mistura de culpa e irritação, incomodado com a inesperada demanda feita ao seu tempo e dinheiro? Jogar 1 dólar na caixa aberta, só por educação? E a sua decisão muda, se o músico for muito ruim? E se for muito bom? Temos tempo para a beleza? Não devíamos ter? Qual é a matemática moral desse momento?

Naquela sexta-feira de janeiro, essas questões particulares seriam respondidas de maneira incomumente pública. Ninguém sabia, mas aquele tocador de violino, de pé junto à parede nua, na galeria subterrânea de acesso à estação do metrô, perto do alto da escada rolante, era um dos melhores instrumentistas eruditos do mundo, executando algumas das mais elegantes peças musicais jamais escritas, num dos violinos mais valiosos jamais fabricados por mãos humanas. A apresentação foi encomendada pelo Washington Post como uma experiência em matéria de contexto, percepção e prioridade — além de servir para uma avaliação inapelável do gosto do público: num cenário banal e numa hora inconveniente, a beleza conseguiria transcender?

O instrumentista não executou melodias populares cuja familiaridade, por si mesma, bastasse para atrair o interesse dos passantes. O teste era outro. Apresentou obras-primas que resistiram aos séculos apenas pelo seu brilho, música sublime condizente com a imponência das catedrais e das grandes salas de concerto.

A acústica se mostrou surpreendentemente favorável. Embora a galeria tenha sido construída com fins utilitários, para servir como área de passagem entre a escada rolante do metrô e as calçadas do lado de fora, de alguma forma ela conseguia capturar o som do violino, para espalhá-lo redondo, rico em ressonâncias. Muito já se disse sobre a semelhança entre o violino e a voz humana. Nas mãos de mestre daquele instrumentista, ele soluçava, ria e cantava — sublime, lamentoso, importuno, adorador, volúvel, implacável, brincalhão, apaixonado, alegre, triunfal, suntuoso. 

E então, o que vocês acham que aconteceu?

Fizemos esta pergunta a Leonard Slatkin, diretor musical da National Symphony Orchestra. O que ele achava que ocorreria, hipoteticamente, se um dos maiores violinistas do mundo começasse a tocar incógnito para uma platéia de mais ou menos mil passantes, na hora do rush?

“Vamos supor”, respondeu Slatkin, “que ele não seja reconhecido, e que todo mundo ache que ele é mesmo só um músico de rua… Ainda assim, se ele for realmente muito bom, não vai passar despercebido. Juntaria um público maior na Europa, é verdade, mas… está bem, das mil pessoas, o meu palpite é de que umas 35 ou 40 reconheceriam a qualidade do que estavam escutando. E que, talvez, de 75 a 100 parassem para passar mais algum tempo ouvindo.”

Quer dizer que iria juntar gente? 

“Ah, claro.” 

E quanto dinheiro ele conseguiria recolher? 

“Uns 150 dólares.” 

Obrigado, maestro. Mas na verdade não estamos falando de um caso hipotético. Aconteceu realmente. 

“E os meus palpites, passaram perto? E quem era o músico?” 

Joshua Bell. 

“Não!!!”

 http://www.revistapiaui.com.br/artigo.aspx?id=107&pag=1

Adeus III

quinta-feira, maio 29th, 2008

É noite, ando pela casa e meus passos marcam o chão gelado. Pegadas que desaparecem, como o perfume do ar, como os beijos dos lençóis, como sonhos. E nada sei dos sonhos, senão o que eles constroem em mim, e assim mesmo sei deles mais do que sei de você.

Eu abro a janela lentamente e meus dedos desenham curvas no embaçado do vidro, rascunhos de uma despedida que você não verá hoje, mas da próxima vez que vier o frio.

Sento na batente, e meus braços nus me arrumam desculpas várias para não ir. Mas estes braços não te abraçam, não te alcançam. Não entendem as saudades e suas promessas – sentimentos subjetivos demais ao toque.

Porque é muito cedo, tarde demais, e meus pensamentos se põe em um horizonte que não tem mais teu rosto, que divaga em vários outros, até no meu.

E é afortunada a madrugada estrelada, a lua no céu azul, a mala pronta ao lado da porta – minha saída sendo a janela. Porque daqui nada levo senão asas, aqui nada deixo senão flores.

Quisemos tudo, mas quem voou, fui eu.