Arquivos de abril, 2007

Pernambuco e a Fada-do-Dente
(ou Retorno à Fantasia)

sexta-feira, abril 20th, 2007
Para nossos filhos

Era uma vez Pernambuco, não o estado nordestino, mas sim um homem chamado Pernambuco. Seus amigos o chamavam de Perna, por isso, vamos chamá-lo assim. Perna era escritor nas horas vagas e dentista pra ter o que comer. Seu maior desejo era fechar o consultório para viver de literatura, mas isso parecia impossível de acontecer. Ele gostava de escrever histórias para crianças, histórias de fantasia e humor. Gostava de contar coisas sobre fadas e ogros, príncipes encantados e duendes. Ele já havia escrito alguns contos assim e até um livro inteirinho, mas não encontrou nenhuma editora disposta a publicar seu trabalho. Elas diziam que não existia mais público para as suas histórias, que as crianças não eram mais tão bobas para acreditar no que ele escrevia e que, hoje em dia, o material para o público infanto-juvenil tinha que ser mais moderno e dinâmico: super-heróis, guerras intergalácticas e olhos desproporcionalmente grandes. Então Perna resolveu desistir.

“Antes disso”, pensou ele, “vou escrever minha última história. Ela será a maior e melhor de todas as histórias que já escrevi. Ele falará sobre o fim do reino das fadas e de como o homem se tornou tão chato como ele é hoje. Depois disso, me aposento de escrever e me dedico completamente à odontologia”. E assim Perna decidiu.

Naquela tarde, ao voltar do escritório acabado e cansado por ter perdido seu dia inteiro em algo que não gostava de fazer, Perna chegou em casa e resolveu tomar um banho. Enquanto se ensaboava, ele percebia que a água que escorria para o ralo era meio amarelada. Em outros momentos ela ficara azul, vermelho e também verde. Achou tudo aquilo muito estranho e parou o banho diversas vezes procurando em seu corpo o motivo daquela água colorida. Não descobrindo nada de estranho, acreditou que aquele deveria ser um problema da companhia de água de sua cidade. Ele fechou o registro, secou seu corpo, se vestiu e ligou para a companhia de água.

Já meio enfurecido por ter ficado esperando na linha por mais de meia hora, Perna irritou-se de vez quando foi informado que não havia nada de diferente no abastecimento de sua região. Ele então resolveu fazer uma reclamação a prefeitura de sua cidade. Mas antes, para acalmar seus nervos, resolveu começar sua história.

De frente ao computador, tela branca e o cursor piscando, nada veio. Perna achou aquilo estranho, pois nunca tivera dificuldade em escrever suas histórias. Elas pareciam que fluíam para fora do seu corpo, escorrendo pelos seus dedos. Ele achou que aquilo havia acontecido devido ao nervosismo que passara, com o chuveiro e com o atendimento da companhia de água, e resolveu esquecer o assunto. Colocou o pijama e foi dormir mais cedo naquela noite.

No meio da noite, despertou e tentou novamente escrever. Não conseguiu e se sentiu frustrado. Voltou a dormir.

No dia seguinte, ao voltar do trabalho, tentou novamente. Nada. No dia após esse também não conseguiu escrever. Depois desse dia, chegou a escrever umas duas linhas, mas achou tudo muito ruim e apagou mais tarde. Ele havia ouvido falar em um tal de bloqueio, coisa que acontecia com muitos escritores. Mas ele não achava que era isso que havia acontecido com ele. Na verdade, ele sabia muito bem o eu havia acontecido desde o principio, mas se negava aceitar. A água colorida que havia escorrido pelo ralo, dias atrás, era sua inspiração.

“Melhor ser escritor nenhum que escritor frustrado”, foi o que Perna disse a si mesmo. Já que seus textos não eram aceitos pelas editoras, que ele então abandonasse de vez aquela besteira de querer escrever. O que se seguiu, então, foi que Perna começou a se sentir vazio, inútil. A maior parte do seu tempo livre era gasto com suas histórias e agora ele já não mais as tinha. Resolveu se dedicar à Odontologia. Fez cursos de atualização e de especialização. Cursou idiomas estrangeiros e fez aulas de culinária e dança de salão. Parou de ler qualquer coisa que não fosse técnica, aquilo ainda doía nele, apesar de que, mais tarde, ele achou que não mais se importava. Tornou-se um homem mais sério e respeitável. Seu primeiro livro, sobre próteses dentárias, foi publicado dois anos depois do incidente do banheiro. Ele estava tranqüilo, moderadamente feliz. Mas ele não estava satisfeito.

Vez ou outra ele se lembrava das suas histórias. Ria da sua inocência, mas era um riso forçado, tentando se enganar. Na maioria das vezes, ele conseguia, nas outras, ele negava que sentia saudades do seu tempo de escritor infantil. E assim foi até um dia, quando Perna precisou ligar para um antigo amigo e começou a revirar por suas agendas. Ele procurou em uma e depois em outra. Mais uma e mais outra e nada. Então pegou mais uma, e nela ele encontrou algo que o fez não mais se importar de encontrar o telefone de seu amigo. Ele encontrou, nessa agenda de anos atrás, uma anotação a respeito de uma de suas histórias infantis. Ele leu esta anotação e ela despertou nele uma das coisas mais perigosas e maravilhosas no ser humano: a curiosidade.

Perna, então, foi atrás da história que havia escrito em cima desse seu comentário e começou a lê-la. A história contava sobre um lenhador que queria se passar por príncipe para conquistar sua amada, a princesa do reino. Sua aparência era bela, mas o grande problema eram suas mãos calejadas de lenhador. Quem acreditaria que ele era um príncipe se não tinha mãos de príncipe? Para resolver seu problema, o lenhador se enfiou em diversas encrencas e, ao final, pediu ajuda as fadas, que lhe forneceram uma loção mágica, que fazia com que sua mão ficasse mais macia que a seda. Ao final, o lenhador, já como príncipe, conquistou sua amada e foi então que descobriu que ela não se importava com os calos em sua mão. Na verdade ela já o conhecia como lenhador e o que a havia feito se apaixonar por ele, fora o esforço que ele fez para ficar com ela. O que, para ela provava o quanto ele a amava e isso valia muito mais do que mãos macias.

Perna, quando terminou de ler, estava rindo. Fazia tempo que ele não se divertia assim. Ele não se lembrava do quanto aquelas histórias eram especiais e do prazer que elas lhe traziam. Ele então se lembrou que nunca mais poderia escrever outra história daquelas. Lembrou-se do incidente do banheiro e de que tudo estava perdido. Pernambuco chorou.

Não existe, dentro de todos os sentimentos, um mais complexo que a saudade. A saudade é uma espécie de alegria amarga, ou de uma tristeza doce. Sentir saudades é lembrar que um pedaço de você não está mais perto e, que, talvez não esteja nunca mais. Mas a saudade também nos revigora, ela nos dá esperança de dias melhores como aqueles que lembramos. A saudade é o sentimento dos vivos. Só sente saudades aquele que viveu.

E Perna sentia saudades do seu tempo de escritor. Sentiu saudades da época em que seus sonhos se tornavam realidade em suas histórias. Perna queria a fantasia de volta. Ele precisava dela. Mas, como? Ela havia perdido sua inspiração, ela havia descido pelo ralo, coisa que ele nem sabia que era possível. Como então ele a conseguiria de volta? Como recuperar algo que não sabíamos que poderíamos perder? Que dilema!

Foi então que Perna se lembrou de sua própria história sobre o lenhador e teve uma idéia…

No dia seguinte, no escritório, dentre os diversos casos que ele teve que tratar, houve, como já era praxe, uma cirurgia para remoção de Dente do Siso. A cirurgia ocorreu normalmente e, ao final dela, Perna fez um pedido um pouco diferente ao seu cliente. Ele pediu para ficar com o dente. Como qualquer pessoa com mais de doze anos não deve ter percebido ainda, o plano de Perna era muito simples: O lenhador, da sua história, havia conseguido aquilo que queria com as fadas. Pois elas, como grandes sabias que são, possuem uma gama quase infinita de soluções para os problemas banais dos humanos. Por isso, somente uma fada poderia ajudá-lo. Como ele não conhece nenhum encantamento para chamar uma fada, resolveu fazer da forma mais simples e conhecida de se entrar em contato com uma fada: colocar um dente embaixo do travesseiro para receber uma visita da Fada-do-Dente. E foi por isso que ele pediu um dente a um de seus pacientes. E foi exatamente isso que ele fez. Ao chegar em sua casa, colocou o dente embaixo do travesseiro, e junto um bilhete que dizia: “Fada do Dente, preciso muito de sua ajuda. Se você é realmente bondosa e querida, como dizem os livros, por favor me acorde para que possamos conversar”. E foi-se deitar.

Como já era esperado, nada aconteceu.

No dia seguinte, Perna acordou meio triste. Ela havia sonhado coisas tão lindas, mas teve que se deparar com aquele dia cinza, sem-graça e cheio de coisas que ele não queria fazer. E, para piorar, a Fada-do-Dente não o visitara, pois o dente e o bilhete ainda estavam lá, debaixo de seu travesseiro, e ele ainda não tinha sua inspiração de volta. Aquele dia de trabalho foi um dos piores de sua vida. O dia parecia se passar lentamente, as horas se arrastando e os minutos demorando dias para terminar. Ele não parava de pensar na Fada-do-Dente e no porquê de seu plano não ter funcionado. É claro que parte dele dizia ele era um louco por acreditar em fadas, que aquilo nunca iria funcionar. Mas existia outra parte dele, uma pequena parte, mas que crescia gradualmente que dizia o contrário. E foi essa parte que disse a ele: “É claro que não ia dar certo, você tentou enganar a fada. Você tem que usar um dente seu!”. Sim, um dente que fosse dele, que o tivesse servido e acompanhado. Mas onde ele arranjaria um dente? Sua boca estava cheia deles, mas todos estavam em perfeito estado, pois que tipo de dentista seria ele se tivesse dentes podres? Após alguns minutos pensando, ele decidiu arrancar seu próprio Dente do Siso.

Antes que alguém nos chame de burro, sabemos que ele não seria capaz de arrancar seu próprio dente, da mesma forma que um cabeleireiro não pode cortar seu próprio cabelo. Mas, como ele era dentista e em seu consultório havia outros doutores, ele pediu para um deles arrancar seu dente. Devido ao sadismo inerente e natural dos dentistas, este seu colega nem questionou os motivos da extração. Ele apenas confirmou qual o dente a ser extraído, verificou se Perna tinha certeza do que ia fazer e começou as aplicações de anestesia. Perna fechou os olhos, apertou as mãos contra os braços da poltrona e aguardou. Após algum tempo, suas pálpebras começaram a ficar pesadas, a respiração pela boca o entediou e ele cochilou.

Quando acordou, viu um borrão avermelhado em um plano todo branco. Sua visão foi então se adaptando a luz e o borrão tornou-se seu amigo dentista e o plano branco, seu consultório. O dentista sorria enquanto limpava toda a sujeira da operação e Perna pode ver, numa bandeja metálica ao seu lado, um dente. Seu passaporte para o mundo das fadas estava garantido. Ainda com a boca um pouco dormente (era a primeira vez que lhe era aplicada a anestesia), ele agradeceu falando meio torto, pegou o dente e voltou para sua casa.

“Desta vez tem que funcionar!”. Foi o que pensou ao substituir o Siso de seu paciente pelo dele em seu travesseiro. O bilhete, ele deixou o mesmo, sem alterar nada. Deitou na cama e tentou cochilar. A mistura de ansiedade e angústia o impedia de dormir. Ele se revirava na cama, buscando uma posição confortável, mas o que tinha que relaxar era sua cabeça e não o resto. Algumas horas depois, vencido pelo cansaço e sem perceber, adormeceu.

De repente, uma luz amarela começou a brilhar em seu quarto. Perna despertou, meio assustado e confuso. Ele não sabia se dormia ou se já estava acordado. A luz brilhava cada vez mais forte e ele fechou os olhos, tapando-os também com as mãos, para fugir da claridade, mas a luz continuava a incomodá-lo. Foi então que ouviu uma voz:

- Acorda preguiçoso. Disse a voz que, apesar de descontraída, era doce e suave. Pernambuco então resolveu abrir os olhos e não pode acreditar no que via: A Fada-do-Dente.

A primeira sensação que Perna teve foi o medo. Depois de tanto desejar algo, ele teve medo de conseguir o que queria. Michael Ende escreveu um parágrafo muito interessante no livro A História Sem Fim que fala sobre isso:

“Naquele momento, Bastian fez uma importante descoberta: podemos estar convencidos durante muito tempo – anos talvez – de que queremos alguma coisa, se soubermos que nosso desejo é irrealizável. Porém, se de súbito nos vemos diante da possibilidade de este desejos ideal se transformar em realidade, passamos a desejar apenas uma coisa: nunca tê-lo desejado.”

Perna não queria mais a fada, não queria mais nada. Neste momento ele daria tudo para ter sua vidinha monótona de volta. O que o impediu foi a insistência da fada:

- Vamos! Não tenho a noite inteira só para você. E olhe que eu nem deveria estar aqui, pois você infringiu as regras.

Foi então que Perna resolveu falar:

- Você é mesmo a Fada-do-Dente?

- Sou sim, meu caro. Mas vamos, diga logo o que você quer.

- Bem, dona fada, sabe, eu era escritor. Na verdade eu ainda escrevo, só que não é a mesma coisa. Antes eu escrevia histórias maravilhosas, falava sobre mundos infinitos de heróis e cavaleiros, dragões e bruxos. Mas agora eu não consigo mais escrever uma linha sobre isso. Eu acho que minha inspiração desceu pelo ralo.

- Desceu pelo ralo? Você quer dizer, literalmente?

- Sim, sim. Nossa, é bem mais fácil falar com fadas do que com humanos. Um dia, enquanto eu tomava banho, uma água colorida começou a escorrer pelo meu corpo. Na hora eu achei que era problema do chuveiro, mas depois descobri que não conseguia escrever mais um linha que prestasse.

- Que caso mais estranho! Sim, pelo que vejo, sua inspiração o abandonou. Mas isso não é uma coisa comum. Enquanto um artista estiver disposto a fazer arte, sua inspiração nunca acabará.

- Bem, então…

- Então o que?

- Na época que isso aconteceu, eu estava disposto a parar de escrever. Mas antes eu queria escrever uma última história, na qual eu contaria como a fantasia acabou e o mundo se tornou do jeito que é hoje.

- Blasfêmia! Blasfêmia dupla! Como você ousa usar a inspiração que sua Fada Madrinha lhe deu dessa forma. Desculpe-me, mas eu acho que seu caso é sem saída. Uma coisa é parar de escrever. Agora, escrever sobre o fim das fadas é a mesma coisa que nega-las. E se você nega a fonte de sua inspiração, é claro que ela seca.

- Mas você não pode me ajudar?

- Eu? Claro que não! Eu sou a Fada-do-Dente, eu coleto os dentes que caem e os troco por dinheiro. Aliás, por falar em dentes, tem algo muito importante que preciso falar com você. Você infringiu o código do dente. Foi muito custoso conseguir autorização para conseguir visita-lo hoje.

- Foi por causa do caso do dente do meu paciente?

- Não, nunca. Isso não foi nem considerado. O problema foi que você utilizou-se de dentes que foram arrancados, e não que caíram naturalmente. Além disso, você usou Dentes do Siso, que além de inúteis, são considerados uma ofensa no mundo das fadas. O Dente do Siso é um dente que somente os adultos têm, é o Dente do Juízo. Ele não serve para nada. É o dente mais teimoso e cabeça-dura que existe. Quando ele não nasce todo torto, nasce podre. Apenas alguns raros conseguem sobreviver. E, mesmo esses, são inúteis. Não tem nada mais “gente crescida” do que um Dente do Siso . E é por isso que nós não aceitamos.

- Mas, então, por que você veio, se não vai recolher o dente? E como você conseguiu essa tal de autorização.

- Ah, mas você faz muitas perguntas, e todas ao mesmo tempo. Na verdade o que aconteceu foi que ficamos sabendo pelos duendes do sacrifício que você estava passando para me chamar. Então foi convocado um conselho de fadas para decidir se eu viria ou não. A decisão foi quase unânime. Afinal, as fadas são muito curiosas.

- Mas se você não pode me ajudar, foi tudo em vão, não é?

- Claro que não. Eu disse que não podia lhe ajudar. Mas eu sei quem pode.

- Quem?

- Sua Fada-Madrinha, oras.

- Eu tenho uma?

- Claro que tem. Todo mundo tem. O que acontece é que elas são muito velhinhas e nem sempre podem estar presentes.

- Ué, mas fada envelhece?

- Claro que envelhece. Toda vez que alguém se esquece de sua fada, ou a abandona, ela envelhece um pouquinho. E dependendo da forma como a fada é abandonada, ela pode chegar a morrer.

- Mesmo!? Meu Deus, então a minha decisão de escrever sobre o fim das fadas deve ter abatido violentamente a minha fada.

- Nem me fale. A coitadinha está de cama desde então. Dizem que precisou ser operada na asa esquerda, pois a mesma definhou com o choque.

Perna mostrou-se realmente preocupado. Um discreto sorriso brotou no canto do rosto da Fada-do-Dente.

- Você pode me levar até ela?

- Bem, depende. Você acredita?

- Acredita no que?

- Que eu posso lhe levar até ela.

- Mas é claro que acredito.

- Então segure-se em mim, que a viagem começa agora!

Neste momento, a luz que emergia da Fada-do-Dente começou a brilhar mais forte e tomou o quarto por completo. A cama, a cômoda, o guarda-roupa e a televisão, começaram a girar. De início de forma lenta, mas a velocidade foi aumentando gradativamente. Logo a luz brilhava tão forte que não mais se conseguia ver os móveis do quarto de Perna. Tudo ficou amarelo e depois branco. E, ao ver tudo branco, Perna não via nada.

Quando a luz começou a diminuir novamente, Perna se viu em um quarto cor-de-rosa em tom pastel. Ele e a Fada-do-Dente estavam parados de frente para uma cama. Havia apenas um armário de madeira encostado na parede atrás deles ao lado de uma janela, uma porta branca quase na esquina da parede da esquerda com a parede da frente e a cama, que já dissemos anteriormente.

A Fada-do-Dente olhou para a cama com um ar de questionamento. Eles estavam no hospital das fadas, procurando a Fada-Madrinha do Perna. Porém, ela não estava em seu leito. A Fada-do-Dente então pediu para que Perna aguardasse ali e foi em busca de uma Fada-Enfermeira que lhe pudesse dar alguma informação. Perna aguardou alguns minutos sentado na cama do quarto, mas logo se irritou e foi até a janela dar uma espiada. Olhando por ela, pode ver um belo jardim, cheio de flores, plantas e árvores. No meio do jardim, viu também uma fada velhinha cuidando de uma roseira. A asa esquerda da velhinha era menor que a direita. Era a sua Fada-Madrinha.

Sem se preocupar com o fato de estar em um lugar totalmente estranho e mágico, Perna saiu do quarto e seguiu pelo corredor que ficava na mesma direção da porta. Saindo por ela, chegou ao jardim e se aproximou da senhorinha fada.

Ela segurava muito debilmente uma tesoura de posa, e cortava lentamente as folhas mortas das roseiras. Perna, já quase encostando em sua Fada-Madrinha, perguntou:

- Posso ajudar a senhora?

A fada voltou-se para ele, forçando os olhos por trás dos óculos que usava, tentando enxergar o dono daquela voz. Provavelmente não teve muito sucesso, mas, mesmo assim, disse:

- Não meu filho, muito obrigado.

Perna, percebendo que sua fada não o havia reconhecido, resolveu continuar com a conversa mantendo-se anônimo.

- A senhora não estava de cama?

E a senhora respondeu:

- Sim, eu estava. Na verdade estava muito mal até ontem à noite. Porém, algo aconteceu e hoje estou me sentindo melhor do que antes. Dizem que isso tudo foi graças ao meu afilhado, que fez uma coisa muito bonita por mim.

- É verdade?

- Sim. Bem, pelo menos é o que dizem. Sabe, estou de cama desde que ele me abandonou. Hoje é o primeiro dia que consigo sair em mais de cinco anos.

Perna estremeceu da cabeça aos pés. É estranho o número de vidas que dependem dos nossos atos sem que nunca tomemos consciência disso.

- Mas a senhora realmente acredita nisso. A senhora realmente acredita que seu afilhado lembrou-se da senhora?

- Meu garoto, você é jovem ainda. Quando for velho, como eu, entenderá que existem poucas coisas a se prender além da esperança. Pode ser que eu tenha melhorado por qualquer motivo, mas eu escolho acreditar no que acredito. E é isso que me impediu de ter desaparecido de uma vez por todas.

- É verdade. E este foi meu erro, deixar de acreditar.

E Perna encheu-se de coragem e continuou:

- Madrinha, olhe para mim. Sou eu, seu afilhado. Confesso que o sacrifício que fiz não foi pela senhora, mas se eu soubesse do que se passava, nunca teria deixado as coisas ficarem como estão. Perdoe-me.

Então a senhora voltou-se para ele, e olhando em seus olhos, disse:

- Eu sabia que era você. Meus olhos fraquejam, mas meu coração continua enxergando muito bem. Meu filho, eu sei que você está aqui hoje buscando ter sua inspiração de volta e sei que agora você sente que seu desejo é egoísta. Mas o que você não percebeu ainda é que o que você deseja não vai salvar somente a si mesmo, mas também a mim e a todo Reino das Fadas. Você talvez ainda não tenha percebido isso, mas atravessou o véu entre os reinos humanos e o mundo do Faz-de-Conta. Isso é um feito grandíssimo para um humano.

E enquanto falava, a vitalidade e a beleza da velhinha voltavam. Ela levantou-se e começou a ficar cada vez mais jovem e altiva. Sua asa esquerda, então, rejuvenesceu-se, recuperando, enfim, toda sua magnitude perfeita de fada. Perna, embasbacado, abriu a boca para falar, mas sua Fada-Madrinha fez um sinal para que se calasse. E então continuou:

- Sei que você agora deseja me perguntar se eu tenho algum tipo de poção, ou fórmula mágica, para recuperar sua inspiração. Entristece-me muito ao dizer, após tudo o que você passou, que não posso ajudá-lo. Mas saiba que sou eternamente grata por tudo que você fez por mim e pelo nosso reino. Saiba que sua jornada não foi em vão.

Perna estava frustrado, não podemos negar, mas sua alegria era tantas vezes maior que não conseguia se importar se havia atingido seu objetivo ou não. Afinal, objetivos mudam conforme as estradas que se percorre e ele agora sabia que existia muito mais no mundo do que seus planos. Após um curto momento, a Fada-do-Dente saiu pela porta do hospital, junto a Fada-Enfermeira-Chefe, indo em direção aos dois. Ao ver a Fada-Madrinha de Perna totalmente recuperada, exclamou para Perna:

- Eu sabia que você tinha jeito!

E continuou:

- Mas agora é melhor a gente ir embora. Você já teve seu tempo com sua Fada-Madrinha e já é hora de voltar. Agora que vocês já se conhecem pessoalmente, será bem mais fácil chamar ela quando precisar. E você nem vai precisar ficar esburacando sua boca!

Todos riram e Perna se aproximou de sua Fada-Madrinha. Deu-lhe um abraço, olhou bem dentro de seus olhos e sorriu: “Obrigado”, foi o que seus olhos diziam quando começou a desaparecer, partindo do Mundo das Fadas.

Perna acordou em sua cama. Eram 3 horas da manhã, mas ele sabia que não conseguiria voltar a dormir aquela noite. Ele então enfiou a mão por debaixo do travesseiro e encontrou seu Dente do Siso e o bilhete. “Deve ter sido tudo um sonho”, pensou. Mas ele sabia que não era nada disso. Ele então tomou o bilhete em uma das mãos, acendeu o abajur e viu escrito em letras douradas após o seu recado:

“Pode ficar com essa porcaria de Dente do Siso, não quero manchar a minha reputação. Gostei muito de lhe conhecer, se algum dia você tiver um filho e ele perder um dente, não se esqueça de me chamar, ok?

Ah, só mais uma coisinha. Tudo na vida tem um preço, e isso inclui a viagem que você fez ao Reino das Fadas. Não se preocupe, eu cobro baratinho. Meu preço são cinco contos…

… Contos de Fadas.”

O bilhete não estava assinado, mas Perna não mais precisava dessas confirmações bestas de gente crescida.

Naquele dia, Perna voltou a escrever.

fairy on a mushroom looking at a butterfly or the stars
explodingdog – fairy on a mushroom looking at a butterfly or the stars

O Cartão

terça-feira, abril 17th, 2007

Como quem lê este blog já deve ter percebido, gosto de escrever (o simples fato de existir um blog já comprova isso). O que alguns não sabem é que isso se torna um fardo quando se trabalha em um escritório e suas chefes descobrem sua habilidade. Não sei se isso ocorre apenas nos bancos públicos, mas no Banco do Brasil, onde fui estagiário, e agora na CAIXA é a mesma coisa: Alguém vai se aposentar, é aniversário de fulano, está chegando o Dia da Árvore. – Mário, escreve um cartãozinho? De início até que é interessante. Seus chefes reconhecem suas habilidades, as pessoas começam a lhe procurar e você se sente, de certa forma, especial. Mas então a graça acaba e só resta a encheção de saco mesmo.

Sexta passada foi assim. Estava eu trabalhando quando a Nair se aproximou. Quando ela se aproxima, a gente sabe que ou é encrenca ou história. Era o primeiro. Um cara aqui do banco ia sair para outra unidade e aquele era seu último dia. Como de costume, ficamos sabendo de última hora e a comoção começou para improvisar uma despedida. A Nair queria que eu escrevesse o cartão. Pela primeira vez eu me neguei e então ela continuou do meu lado. Neguei novamente e, como esperado, comecei a escrever.

O destinatário do cartão era um cara não muito importante na minha vida. Não era meu amigo e eu realmente não me importava com sua partida. Confesso que cheguei ao ponto de não gostar dele, devido um incidente em que ele se mostrou agressivo em sua ironia e arrogante em sua atitude (nada mau para um Testemunha de Jeová). Então, resumidamente, eu tinha que escrever um cartão, algo que não queria, para um cara que eu não gostava. Ô, treta! É nessas horas que o mar é dividido. De um lado quem escreve e do outro quem é escritor. Escrever quando se está inspirado é um dom. Agora, inspirar-se quando se tem de escrever, isto sim é uma virtude. Desculpem-me se me enalteço. Por favor, não me julguem mal. Eu não sou escritor, mas fui escritor. Como na fábula de Mark Twain, tive meu dia de príncipe, mas apenas por ser confundido com um.

E então eu comecei a escrever o maldito cartão. Superada a fase inicial de negação, e aceitando o fato de que a Nair não iria sair dali seu o que havia pedido, comecei a digitar. As idéias então começaram a surgir e a velocidade das batidas nas teclas foi aumentado. Logo eu já não ouvia mais nada, não enxergava e não sentia. Todos meus sentidos estavam ligados aquela pequena mensagem de um parágrafo. A inspiração brotava de alguma fonte invisível e eu, em pouco tempo, terminei a mensagem. Não precisei revisá-la, lá estava tudo, de primeira.

Fiquei satisfeito e não mais me importava com o destinatário. Busquei pela internet por uma imagem melhor do que haviam solicitado. Editei-a e a apliquei ao texto, harmonizando palavras e imagens. Eu estava realmente feliz com o resultado. Estava orgulhoso. Eu realmente me considerei um escritor naquele momento.

Imprimi uma cópia e a entreguei a Nair. Ela então saiu com o pedaço de papel nas mãos e foi mostrar aos responsáveis pela algazarra toda. Minutos depois ela volta:
- Então, elas me disseram que seria melhor se tirasse o texto, pois não vai sobrar espaço para o pessoal assinar. Elas querem apenas um “Sucesso”.

Apertei os olhos, respirei fundo e fiz as alterações e entreguei o novo cartão. O pessoal assinou e foi tudo lindo, e ninguém nunca soube daquele texto. Bem, nada mais justo. Foi aquele texto que me fez me sentir, pela única vez na vida, um escritor. E foi ele também que me apresentou ao grande Satanás que todos os escritores enfrentam: O Editor.

Voltemos ao lado do mar que nos pertence.

explodingdog - ok
explodingdog – ok

Pedro Keppler

quinta-feira, abril 12th, 2007

Lá pelas bandas do início do século, quando tive minha época de balconista em uma loja de quadrinhos japoneses, conheci um garoto chamado Pedro Keppler. Ele estudava em uma escola próxima a loja e costumava aparecer por lá junto de outros dois amigos (um se chamava André e o outro eu não me lembro). Keppler era um menino diferente. Seu jeito de falar as vezes era afobado, outras vezes era truncado, como se ele buscasse as palavras como meias em um quarto bagunçado. As vezes era os dois ao mesmo tempo. Ele era bonito sem ser belo. Suas feições são extremamente comuns e, talvez por isso, agradáveis. Ele foi o cara que teve o moicano vermelho e, tempos depois, o black preto. Ele usava suspensórios e chapéus coco. Era ingênuo, mas nem sempre inocente. Pedro gostava de Ska, mas a última vez que o encontrei, ele tinha acabado de ver o show da M.I.A. O extremo do underground, sem ser Alternativo, pois era Junkie e sem ser Junkie pois era Alternativo. Teve alguns problemas com a ingestão excessiva de aspirinas efervecentes, mas isso não durou muito. Se o Libertines ainda existisse e fizesse um clipe no Brasil, ele, com certeza, estaria entre os figurantes. Não talvez por vontade sua, mas sim pela da banda, que teria que ter Pedro Keppler em seu meio. Grande amigo, meio distante, ele é o tipo de cara que pode tudo e nada ao mesmo tempo. Não posso dizer que tenho expectativas a respeito deles, mas realmente, nunca sei o que esperar. Ele anda desenhando por aí, tinha um blogue para isso. Não sei se ainda existe (qualquer um dos dois).

Porém, houve uma vez em que Pedro Keppler me pareceu muito comum. Houve uma vez que ele se tornou previsível, corriqueiro e até cafona. Foi quando ele se apaixonou. Lembro como se fosse hoje das conversas que tive com ele e, depois, com a garota. Ele estava ansioso, esperançoso e com medo. Ele não sabia como agir, nem o que esperar. Ele desejava e repudiava ao mesmo tempo. Negava com as palavras e assumia toda a culpa com o olhar. Se existe algo que une todos os homens em uma única figura universal, isso é o Amor. No Amor, o Gustavo é igual ao Alessio, o Cananéia é igual ao Quinho, o Rodolfo e o Ricardo ficam idênticos. No Amor o Felipe chora, o Alex se mostra preocupado, o PH se entrega, o Analfabeto se torna Poeta e Filósofo se torna Ciumento. Ao final das contas, a única coisa que faz com que todos os homens se pareçam são as mulheres.

Um brinde à Reginaldo Rossi.

Explodingdog - Is She Out There?

explodingdog – is she out there?

Que horas são?

terça-feira, abril 10th, 2007

Hoje, de manhã, no ponto de ônibus. Uma mãe e uma criança (um garoto de uns 5 anos) descem do Belem e a criança se senta no banco do ponto. Eles aguardam outro ônibus. Está muito frio e a mãe pede para que o garoto vista sua jaqueta. Ele reclama e não veste, apesar de já estar com as mãos enfiadas nas mangas. Em um certo momento ele diz: “Vou ver que horas são”, e começa a puxar seu braço de dentro da manga. Após algum esforço, o garoto consegue se livrar da manga. Ele então olha para seu relógio, encara-o por alguns intantes e diz:
- Pronto, já sei que horas são.

Touched by the Crimson King

quarta-feira, abril 4th, 2007

A Torre Negra VII

Em pré-venda no Submarino.