Arquivos de agosto, 2008

God Called In Sick Today

domingo, agosto 31st, 2008

Uma das maiores maravilhas do mundo moderno é a capacidade de aniquilar o espirito humano de tal forma que, da mesma forma que um pássaro de gaiola, morremos em contato com a liberdade. A lógica burguesa do trabalho é a grande responsável por isso. Hoje é domingo e encontro-me em um estado tão familiar de angústia que não sei direito se sinto falta do trabalho ou falta de mim mesmo. O fim de semana é uma das coisas que mais tem me desgastado e deprimido. O tempo tem passado tão velozmente que, ao invés de servir como uma pausa benéfica, meus fins de semana se parecem mais com o que acontece quando estamos pedalando com a marcha pesada e temos de parar bruscamente devido a um carro, ou outra coisa: a parada é tão rápida que nem compensa o esforço que o corpo faz para botar a bicicleta em movimento novamente. A grande dúvida que fica é: o esforço compensa? Assim, para o empregado, é claro que não, nunca compensará. Mas, eu digo para aquele que emprega as pessoas. Será que realmente compensa exigir uma jornada tão intensa que somente desgasta, sem espaço para que o empregado possa realmente usufruir do resultado do seu esforço? Não estou reclamando do meu trabalho, muito menos de trabalhar. Não tenho muito do que reclamar levando em conta a lógica dos dias de hoje. Mas então eu pergunto: que lógica? Não é mistério para ninguém saber que nossa sociedade vive sob a regra da produção desenfreada e do acúmulo desnecessário. Vivemos para consumir e somos consumidos por isso. Então eu diria, eu gosto do mundo em que eu vivo, só acho ele meio burrinho. Quem disse que precisamos trabalhar tanto? Não seria muito melhor se tivéssemos uma jornada mais flexível, montada em projetos e regrada pelo bem estar de todos? Conheço dezenas de pessoas da geração anterior, aposentados e com uma capacidade absurda de trabalho. Meus pais estão nesta turma. Agora: não seria mais inteligente se tivéssemos uma escala bem mais tranqüila de trabalho. Algo como 5 horas diárias, 4 vezes por semana? Poderíamos ter uma folga na quarta, ou em outro dia, dependendo da empresa. Aliás, poderíamos abolir o sábado e o domingo. Não há nada mais cruel do que esses dois dias. Tudo está fechado e quem trabalha numa escala de 9 horas diárias não tem a menor possibilidade de ir a um banco, por exemplo. Se trabalhássemos todos por escala, viveríamos em uma sociedade mais equilibrada, com serviços funcionando a todo o tempo. Sem falar que com as jornadas reduzidas, teríamos menos gente rondando pela cidade em um único horário. Diminuiria a concentração de gente naquela maldita rotina: 6:00 – para a centro; 18:00 – para os bairros. Bem, sei lá, só espero que os donos de empresa percebam logo que quanto mais tempo livre, mais concentrados no trabalho as pessoas ficarão quando estiverem trabalhando.

Beleza?

sexta-feira, agosto 29th, 2008

Saíndo do metrô, indo em direção a catraca, percebo-me olhando para um rapaz. Ele, olhou de volta e disse: ******. Eu estava de fone, por isso não ouvi nada, então ele repetiu: ******. Graças aos poderes me concedidos pelo HAL 9001, li seus lábios e vi que ele dizia: Beleza? Eu respondo um tímido e baixo: beleza. Isso porque eu não o reconheci. Então apressei meu passo até ter certeza que ele não vinha em minha direção.

Senti-me mal após algum tempo. Não que eu achasse que tivesse dado mancada por ser um possível conhecido. Eu sabia que não o conhecia, tenho uma boa memória para fisionomias (agora, com nomes sou um desastre). Porém, sou eu o primeiro a erguer a bandeira de que as pessoas tratam as outras como se fossem apenas cones no meio da rua, que senti que deveria tê-lo tratado como a um amigo, mesmo que eu não fosse. Sei lá, quem disse que todos os nossos relacionamentos nessa Terra devem ser iniciados com a segurança de saber com quem se trata? Quem disse que precisamos de referências para tratar alguém como uma pessoa amiga.

Hoje, eu disse isso. Quantas coisas são ditas pelos nossos atos?

HAL9001

I got mail!

quinta-feira, agosto 14th, 2008

mail

Hoje eu recebi um cartão postal e uma carta. Foram de pessoas diferentes, mas ambas muito especiais na minha vida. Quem diria que o correio ainda consegue deixar o dia de uma pessoa muito feliz. Quem ainda acredita no poder das cartas? Que nostalgia hipócrita a minha: saudades de um tempo que nunca vivi.

se uma árvore cai na floresta e não há ninguém para ouvir, ela produz algum som?

quarta-feira, agosto 6th, 2008

Ele desceu do metrô na estação L’Enfant Plaza e encostou-se numa parede ao lado de uma cesta de lixo. Por quase todos os critérios, era um sujeito que não chamava a atenção: um homem branco, mais ou menos jovem, vestindo jeans, camiseta de manga comprida e boné do time de beisebol Washington Nationals. De uma caixa, ele tirou o violino. Deixando a caixa aberta no chão, na frente dos pés, teve o cuidado de plantar ali algumas notas de 1 dólar, e várias moedas, para atrair mais dinheiro. Girou o corpo, para ficar de frente para o fluxo dos pedestres e começou a tocar.

Eram 7h51 da manhã, da sexta-feira, 12 de janeiro, hora do rush matinal. Ao longo dos 43 minutos seguintes, enquanto o violinista executava seis peças clássicas, 1.097 pessoas passaram à sua frente. Quase todos estavam a caminho do trabalho que, no caso da grande maioria, era um emprego público. A L’Enfant Plaza fica no núcleo da área de Washington ocupada pela administração federal, e ali transitam burocratas de nível médio, com os seus títulos um tanto indeterminados e estranhamente intercambiáveis: analista de projeto, gerente de iniciativa, programador de orçamento, especialista, consultor, supervisor.

Cada um dos passantes precisava fazer uma escolha rápida, uma escolha habitual para os usuários do transporte coletivo em qualquer área urbana, onde artistas de rua fazem parte da paisagem: parar e escutar? Acelerar o passo com uma mistura de culpa e irritação, incomodado com a inesperada demanda feita ao seu tempo e dinheiro? Jogar 1 dólar na caixa aberta, só por educação? E a sua decisão muda, se o músico for muito ruim? E se for muito bom? Temos tempo para a beleza? Não devíamos ter? Qual é a matemática moral desse momento?

Naquela sexta-feira de janeiro, essas questões particulares seriam respondidas de maneira incomumente pública. Ninguém sabia, mas aquele tocador de violino, de pé junto à parede nua, na galeria subterrânea de acesso à estação do metrô, perto do alto da escada rolante, era um dos melhores instrumentistas eruditos do mundo, executando algumas das mais elegantes peças musicais jamais escritas, num dos violinos mais valiosos jamais fabricados por mãos humanas. A apresentação foi encomendada pelo Washington Post como uma experiência em matéria de contexto, percepção e prioridade — além de servir para uma avaliação inapelável do gosto do público: num cenário banal e numa hora inconveniente, a beleza conseguiria transcender?

O instrumentista não executou melodias populares cuja familiaridade, por si mesma, bastasse para atrair o interesse dos passantes. O teste era outro. Apresentou obras-primas que resistiram aos séculos apenas pelo seu brilho, música sublime condizente com a imponência das catedrais e das grandes salas de concerto.

A acústica se mostrou surpreendentemente favorável. Embora a galeria tenha sido construída com fins utilitários, para servir como área de passagem entre a escada rolante do metrô e as calçadas do lado de fora, de alguma forma ela conseguia capturar o som do violino, para espalhá-lo redondo, rico em ressonâncias. Muito já se disse sobre a semelhança entre o violino e a voz humana. Nas mãos de mestre daquele instrumentista, ele soluçava, ria e cantava — sublime, lamentoso, importuno, adorador, volúvel, implacável, brincalhão, apaixonado, alegre, triunfal, suntuoso. 

E então, o que vocês acham que aconteceu?

Fizemos esta pergunta a Leonard Slatkin, diretor musical da National Symphony Orchestra. O que ele achava que ocorreria, hipoteticamente, se um dos maiores violinistas do mundo começasse a tocar incógnito para uma platéia de mais ou menos mil passantes, na hora do rush?

“Vamos supor”, respondeu Slatkin, “que ele não seja reconhecido, e que todo mundo ache que ele é mesmo só um músico de rua… Ainda assim, se ele for realmente muito bom, não vai passar despercebido. Juntaria um público maior na Europa, é verdade, mas… está bem, das mil pessoas, o meu palpite é de que umas 35 ou 40 reconheceriam a qualidade do que estavam escutando. E que, talvez, de 75 a 100 parassem para passar mais algum tempo ouvindo.”

Quer dizer que iria juntar gente? 

“Ah, claro.” 

E quanto dinheiro ele conseguiria recolher? 

“Uns 150 dólares.” 

Obrigado, maestro. Mas na verdade não estamos falando de um caso hipotético. Aconteceu realmente. 

“E os meus palpites, passaram perto? E quem era o músico?” 

Joshua Bell. 

“Não!!!”

 http://www.revistapiaui.com.br/artigo.aspx?id=107&pag=1