Arquivos de setembro, 2008

Esmola

segunda-feira, setembro 22nd, 2008

Cara, eu sempre me sinto lesado alguns momentos após dar algum tipo de ajuda a pedintes na rua. Não pelo motivo de ter diminuído minhas resevas econômicas em função de um total estranho. Eu não tenho problemas com isso. Aliás, que bela merda faz quem ajuda só aos amigos. Todo mundo já faz isso, dizia Jesus. O que quero dizer com lesado é pelo fato de sempre eu acabar recebendo algum tipo de retorno do pedinte que deixa claro que o que eu acabei de fazer foi simplesmente arrumar dinheiro pra alguém que não estava a fim de consegui-lo de outra maneira. Uma das vezes que mais fiquei indignado foi quando dei metade do meu lanche do black dog (a.k.a. meu jantar) para um pedinte. Ele aceitou o lanche, me agradeceu, mas pediu uma moeda. Eu olhei pra cara dele com uma expressão de assombro, seguida de raiva. “Como assim, uma moeda”. “Ah tio, me arruma algum dinheiro. 5 centavos, 10 centavos”. Quase mandei-lhe a merda, mas saí de lá revoltado, e com meio lanche apenas. O bizarro é que esse povo considera pedir uma profissão. Durante uma conversa com um mendigo, meses atrás, tive o diálogo interrompido por diversas vezes, quando o semáforo fechava, pois o rapaz tinha que “trabalhar”. Aquela foi uma das conversas mais interessantes que tive na vida. E foi realmente triste descobrir que estava diante de uma pessoa muito inteligente e capaz. Viciado em crack, coitado. Não me senti lesado no momento, mas quando penso no potencial desperdiçado daquele garoto (que tem a minha idade) bate uma coisa bem ruim. Eu o vejo diversas vezes, mas ele nem deve se lembrar. Sua cabeça não deve mais funcionar corretamente.

Mas vou evitar divagar mais. O caso do rapaz viciado em crack é um pouco diferente do comum. Hoje, por exemplo, descendo para o mercado, encontrei uma pessoa (acho que era uma menina) que me pediu dinheiro-para-comprar-leite-para-o-filho-pequeno-de-sua-tia-que-tem-câncer-e-não-tem-dinheiro. Eu não estava dando muita atenção, nem diminuí meu passo (e eu ando rápido), mas ouvi o que a pessoa tinha a me dizer. Perguntei então: “você quer dinheiro pra comprar leite?”. Ela fez que sim. Disse então que iria ao mercado e voltaria com um litro para ela. E assim o fiz. Comprei também um pacote de bolacha recheada para que ela tivesse algo para comer também. Fiz o percurso de volta pensando no que diria àquela pessoa. Eu diria para ela estudar? Para tentar arrumar uma vida melhor? Para cuidar bem da tia dela? Sei lá, eu queria dizer tanta coisa, mas não sabia direito o que. Foi então que, ao me aproximar da pessoa, fui abordado novamente por ela, como se nunca houvesse me visto na vida. Eu disse à ela: “Você está louca? você me abordou agora pouco”. Ela concordou e eu estendi a sacola. Ela avançou sobre ela, agradeceu e seguiu descendo a rua, sem me dar chance para falar. A sensação que tive foi que ela queria se livrar logo daquela sacola para poder voltar ao seu “trabalho”. E pode ter certeza que foi isso o que aconteceu.

Novamente me senti lesado. É estranho, mas acho que não vou conseguir agir diferente, mesmo que me sinta lesado sempre. Existe algo que me diz que pode acontecer uma vez que a pessoa esteja realmente pedindo porque esgotaram-se suas tentativas; pode ser que um dia alguém realmente esteja precisando. O que acontece é que desde tempos imemoriais, as pessoas enganam as outras, apelando para a boa vontade, para tirar delas algo de valor. Durante um retiro espiritual, em um sítio próximo a Rio Claro, os coordenadores decidiram inventar que havia uma pessoa cujo carro havia quebrado, pedindo para entrar para telefonar. Eles diziam que a decisão cabia a todos e que estavam pedindo a todos que votassem. Não me lembro do resultado final, mas sei que o pessoal ficou bem dividido. E estávamos lidando com apenas jovens líderes de uma religião fundada na entrega e no amor ao próximo. Acho que se estivessemos falando de uma convenção Neo-Nazista, teríamos um grau maior de consenso.

No livro de Victor Hugo, Os Miseráveis, vemos como Jean Valjean lubridia o padre, logo no início do livro. O padre aceita o ex-prisioneiro em sua casa por uma noite e é assaltado pelo mesmo, que logo é capturado pela polícia e levado em sua presença. Jean Valjean rouba os talheres de prata. Ao seu capturado pelos policiais, Jean diz que ganhou os utensílios do padre e que não os estava roubando. Ao ouvir tal história, o padre a confirma. Ele ainda acrescenta que Jean havia se esquecido dos candelabros de prata. Quem segue lendo essa história vê como tal gesto fez com que um homem reavaliasse todos os seus atos e se tornasse num ser realmente bom e iluminado. Nós sabemos que, apesar de grandemente embasada em fatos históricos, Os Miseráveis não passa de um romance. Porém, é a crença de Victor Hugo na raça humana que torna a obra tão magnífica. Ele também relata histórias de outros tipos de miseráveis, incluindo os verdadeiramente trapaceiros, mas prevalece a fé na renovação e redençõ humana.

Não quero justificar o fato de que dou esmolas na rua e que sou, na maioria das vezes, enganado. Mas minha criação e minhas experiências de vida me dizem que vale ter fé na humanidade. Mesmo que grande maioria dela seja formada por pessoas egoístas. Tudo deve ser perdoado. Afinal, nós não sabemos o que fazemos, não é?