Arquivos de agosto, 2009

Vende-se

terça-feira, agosto 11th, 2009

Há coisas que gente sabe que vai acontecer, cedo ou tarde, mas surpreende-se da mesma forma quando elas se tornam uma constatação.

Minha casa está a venda. Cheguei hoje e vi a placa. Fiquei uns 5 minutos parado com o carro frente a ela.

Estou assustado.

Causos de metrô

quinta-feira, agosto 6th, 2009

… Então, no começo dessa semana um cara entrou no metrô e derrubou um livro. Fui ajudar o cara, peguei o livro e entreguei pra ele – foi quando percebi que era o mesmo livro que eu estava lendo. Daí trocamos umas palavras e eu disse brincando: “cuidado que o principal deve morrer no final!”, demos risadas e desci na estação Ana Rosa.

Adivinha?

Valéria, Zoroastro e a Parada Gay

terça-feira, agosto 4th, 2009

Valéria acordou, lavou três vezes a mão, começando pela direita. Tocou todos os xampus com a ponta do dedo. Tomou banho e saiu, trancando a porta e checando três vezes se ela estava realmente fechada.

Valéria mora a um quarteirão do metrô, mas nunca andou um quarteirão até o metro. Ela tem que seguir dois quarteirões pra baixo, um em diagonal em direção ao centro, pegar uma viela e sair na Avenida. Porque não gosta de andar por ruas que só tem calçadas pretas.

Ela contou exatos 1073 passos até a frente do prédio da sua irmã, uma praça bem perto da Avenida Paulista – o que é bom, pois se fosse um número par ela teria que refazer o caminho. Chegou muito, muito cedo, pois às vezes demorava horas para acertar o número correto de passos ou simplesmente perdia a conta e tinha que recomeçar. Estava bonita, cheirosa e heterossexual demais para uma Parada Gay, mas família é família e ela tinha orgulho de sua irmã mais velha, homossexual até o último CD de música da Cassia Eller.

Lá chegando encontrou um rapaz mediano. Nem alto nem baixo, nem gordo nem magro, nem rico nem pobre, não era simpático ou antipático. Marcava profundamente as pessoas só pelo nome: Zoroastro, do persa Z?????????.

Não é fácil esquecer alguém com esse nome.

Zoroastro, assumindo sua posição de rapaz mediano, era contra tudo que era diferente. Não inaceitavelmente contra. Só não era a favor.

Nesse dia ele havia combinado com João, seu colega de classe da faculdade de administração (uma faculdade bem normal, cheia de gente normal), de fazer um pequeno movimento contra os movimentos à favor de coisas assim, diferentes.

Foi assim que Valéria encontrou Zoroastro. Como ele não estava usando nada verde, ela imediatamente simpatizou com ele, e assim começaram uma agradável conversa:

- Poxa, nunca te vi lá na faculdade! Como você ficou sabendo do movimento?
- Ué! Todo mundo está sabendo!

Zoroastro não sabia que seu movimento bestinha tinha se espalhado de tal maneira. Mas uma análise básica de como as pessoas usam o termo “todo mundo” livremente o fez crer que estava frente a frente com uma exagerada.

Valéria ficou decepcionada por descobrir que Zoroastro era gay. E ainda um tão ativo na comunidade! Organizando movimentos e tudo. Mas é a vida.

Conversaram por horas, e cada vez mais Zoroastro se convencia que uma menina tão normal só poderia ser a mulher de seus sonhos; e cada vez mais Valéria se convencia que todos os homens bons estavam comprometidos, ou – obviamente – eram gays.

Foi quando a irmã de Valéria chegou. Com sua namorada.

Zoroastro só tomou susto igual quando sua mãe o chamou pelo nome pela primeira vez. Várias perguntas circularam a cabeça de Zoroastro:

“A irmã de Valéria é gay? Será que a Valéria é também? Como eu não percebi? Será que ela acha que sou gay?” e finalmente, “Gays não deveriam se vestir bem?”.

Zoroastro, notando que a irmã de Valéria era gay, assumiu que pessoas diferentes só poderiam andar com pessoas diferentes. Ou no caso, iguais umas as outras, só diferentes dele. Ou não. Enfim, filosofia não era seu forte, ou mesmo tomar boas decisões sobre pressão, e com medo de que Valéria se afastasse por ele ser diferente… Ou igual… Ou homossexual… Espera.

Com medo de que Valéria se afastasse dele por ele não ser igual a irmã dele, e assim, diferente de todo mundo que era normal… Ou diferente… Ou heterossexual. Espera. Com medo de não ficar mais perto de Valéria, e notando que João – seu amigo – se aproximava, saiu inadvertidamente do armário:

- Esse é meu namorado! João!

João estranhou. Se ele era gay, o que a namorada dele ia pensar?!

- … er… oi… amor?

Zoroastro estranhou. Pô. Amor?

Valéria complementou: “Ah, bacana! Assim minha irmã finalmente vai ter com quem sair. Eu só vim pra dar apoio moral!”

Zoroastro preocupado: “Não entendi”

Valéria “Eu sou hetero”

Zoroastro com os olhos arregalados, pasmo, apertou a mão de João entre as suas e segurou um grito. Quando se lembrou de respirar, gemeu: “Ah”

Valéria “Porque?”

Zoroastro “askdnasmkdas asdmksa”

Valéria “…”

Zoroastro limpa a garganta, engole um sapo boi, dá o melhor sorriso que pode e diz “Suuuuper legal”.

Quando está quase se recompondo e lembra que está de mãos dadas com João, ele percebe que se passar por homossexual é o mais longe que ele jamais foi por uma mulher. E pensa três coisas. 1. Como uma mulher como Valéria, tão normal, vai gostar dele um dia; 2. Porque ela está vigiando a calçada preta do outro lado da rua e 3. Será que João é gay?

Foi quando, ao longe, Zoroastro avistou seus amigos. Eles estavam vindo em sua direção, ele nem percebeu que já era hora do tal movimento contra movimentos a favor de coisas diferentes começar! E agora?