A Migração – A Rede e a Cultura Hacker

A Migração parte 3- A Rede e a Cultura Hacker

Porque como todo bom nerd, eu gosto de trilogias

Após meu mês de Ubuntu e Linux, entendi que a coisa mais importante para o Universo do Software Livre é a Comunidade que eles englobam. Essa comunidade é aquela que desenvolve, critica, debate, testa, compartilha e transforma os códigos e softwares criados por ela. A maior manifestação dessa comunidade é a Internet, pois é nela em que os códigos são mais acessíveis e a comunicação mais dinâmica e veloz, permitindo que programadores que nunca se viram trabalhem no mesmo projeto. Caso alguém trabalhe para alguma empresa, desenvolvendo Software Proprietário, tudo o que ele precisa é de uma equipe e um laboratório. No caso do Software Livre, essa equipe é formada por qualquer pessoa que contribua com o projeto e os laboratórios estão por todos os lugares, ligados pela maior rede de computadores já criada pelo homem. Nessa segunda realidade, a hierarquia não é importante e o nível de envolvimento de cada membro é decidido pelo interesse que ele tenha pelo projeto. Nos dias de hoje, a realidade dos Softwares de Código Livre é a Realidade Hacker, formada por gente que consegue, através da liberdade, feitos grandiosos.

Um dos textos mais importantes da Cultura Hacker é How to Become a Hacker, de Eric Steven Raymond. Nele, são definidas as cinco atitudes necessárias para se tornar um Hacker. Apesar que, como o próprio autor define: você não se intitula Hacker, mas os outros reconhecem um Hacker em você. As cinco atitudes que um Hacker deve ter são:

1 O Mundo é cheio de problemas fascinantes aguardando para serem resolvidos.

Isso significa que o Hacker deve ser uma pessoa que goste de desafios, que procure coisas novas para decifrar e que não tenha medo das dificuldades. O Hacker faz o que faz pelo prazer de fazê-lo, pelo conhecimento adquirido e pela satisfação de vencer os desafios.

2 Nenhum problema deve ser resolvido duas vezes.

A lógica Hacker entende que existem muitos problemas para serem resolvidos no mundo. Portanto, resolver o mesmo problema duas vezes é perda de tempo. Um Hacker ao resolver um problema, divulga a solução e os métodos utilizados. Isso leva a um processo de desenvolvimento muito mais veloz, pois não existe a necessidade de se “inventar a roda” a cada vez que ela seja necessária. Um pensamento como este faz com que os custos de desenvolvimento caiam, tornando as novas tecnologias cada vez mais acessíveis. O oposto ocorre em outras áreas da ciência, como a biologia e a farmacêutica, ambas regidas por patentes que encarecem os processos e atrasam a humanidade.

3 Tédio e trabalhos maçantes são malignos.

Aqui a Lógica Hacker é bem incisiva: trabalhar em algo que não seja interessante é mal. Uma pessoa produz muito mais quando está interessada. Lembro-me de que demorava quase meia hora para me trocar para ir visitar parentes, quando era pequeno. Mas se eu ia para algum lugar interessante, que eu queria ir, a troca de roupas demorava menos de 5 minutos. Deve-se deixar bem claro que, para o verdadeiro hacker, ações e rotinas que pareçam maçantes para pessoas comuns são encaradas com grande prazer, pois sabe-se que delas dependem o sucesso de sua empreitada. É como um fanático por carros limpando e cuidando das peças de algum automóvel.

4 Liberdade é bom.

Os Hacker amam a liberdade e detestam qualquer forma da autoritarismo. Como diz o próprio Eric Raymond:

Qualquer um com o poder de lhe dar ordens pode pará-lo de resolver qualquer problema que você esteja fascinado – e, dadas as circunstâncias que regem a mente autoritária, irá geralmente encontrar alguma razão grandemente estúpida para faz-lo. Dessa forma, o autoritarismo deve ser combatido onde quer que seja encontrado, para que ele não sufoque você e outros hackers.

5 Atitude não é substituto para competência.

Como já dito anteriormente, não adianta alguém se autodenominar hacker para sê-lo. Um hacker somente o é quando é reconhecido por outros hackers como um. E não adianta copiar a atitude hacker em todas as suas nuances se o suposto hacker não for bom em uma coisa: hackear. E isso será determinado pela qualidade das programações que ele efetua e pela contribuição que ele faz à comunidade hacker. Por detestarem o autoritarismo, a lógica hacker também abomina a hierarquia que não seja conquistada por merecimento. Um hacker é melhor e maior do que outro porque isso ele conquistou com seu próprio trabalho, nunca por influências, dinheiro ou poder.

Uma rápida pincelada na história da rede

A Internet foi criada pelas comunidades hacker, mas não apenas por elas. A ARPANET, o primeiro embrião da Internet, foi uma rede criada pela ARPA (Advanced Research Projects Agency), formada pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos da América. O objetivo da ARPA era o “de alcançar superioridade tecnológica militar em relação à União Soviética”. (CASTELLS, 2003). Apesar disso, a ARPA era formada grandemente por professores, estudantes e integrantes do mundo acadêmico. Fundamentada na liberdade e autonomia para o desenvolvimento das pesquisas, a ARPA atingiu seu objetivo, ao contrário da União Soviética, que teve seus núcleos de pesquisa regidos pelo excesso de segurança e sigilo. Porém, o embrião surgido na ARPA desenvolveu-se, unindo-se a diversos outros estudos e protótipos, chegando ao fenômeno comunicacional que temos hoje em dia. Castells (2003) resume toda o desenvolvimento da Internet como uma grande vitória da lógica hacker contra o mundo atrasado da propriedade intelectual.

A história da criação e do desenvolvimento da Internet é a história de uma aventura humana extraordinária. Ela põe em relevo a capacidade que têm as pessoas de transcender metas institucionais, superar barreiras burocráticas e subverter valores estabelecidos no processo de inaugurar um mundo novo. Reforça também a idéia de que a cooperação e a liberdade de informação podem ser mais propícias à inovação do que a competição e os direitos de propriedade.

A Internet não teve origem no mundo dos negócios. Era uma tecnologia ousada demais, um projeto caro demais, e uma iniciativa arriscada demais para ser assumida por organizações voltadas para o lucro.

Porém, a realidade que conhecemos hoje em dia é muito diferente. A Internet torna-se cada vez mais atraente para o mundo dos negócios e o comércio pela Internet, a movimentação intensa do capital por entre as redes, começa a chamar a atenção de grandes empresas e governos que anteriormente não dariam atenção para aquela tecnologia estranha criada por nerds das faculdades norte-americanas.

A Rede sob Ataque

O Anarquismo, e os anarquistas em geral, devido sua descrença em governos e em todo sistema vigente, costuma, de tempos em tempo, criar comunidades afastadas em que podem expressar sua liberdade da forma como acreditam. Botando assim em prática sua teorias e buscando a construção de um mundo melhor. Nesta citação de Kropotkin, transcrita por George Woodcock em seu A História das Idéias e Movimentos Anarquistas – Vol 1, o anarquista é descrito com muitas das atitudes que regem o universo hacker:

“O anarquista imagina uma sociedade na qual as relações mútuas não seriam regidas por leis ou por autoridades auto-impostas ou eleitas, mas por mútua concordância de todos os seus interesses e pela soma de usos e costumes sociais – não imobilizados por leis, pela rotina ou por superstições – mas em contínuo desenvolvimento, sofrendo constantes reajustes para que pudessem satisfazer as exigências sempre crescentes e uma vida livre,estimulada pelos progressos da ciência, por novos inventos e pela evolução ininterrupta da ideais cada vez mais elevados.”

Para o anarquista, a sociedade é naturalmente livre e qualquer tentativa de controlá-la ou regrá-la é um atentado contra a própria essência da humanidade. A meu entender, o universo hacker é a maior manifestação do anarquismo vigente e a Internet e os softwares livres, a mais bem sucedida comunidade anarquista já criada. O sucesso da empreitada hacker é explicada pelo fato dos mesmos construírem sua comunidade em um terreno até então inexistente e desinteressante para os governos e entidades poderosas. Assim, a Internet pode florescer despreocupadamente, como uma borboleta escondida em seu casulo, tornando-se a maravilha que é hoje em dia. Porém, a liberdade e as possibilidades que a Internet propiciam tornaram-se tão evidentes e incômodas que o que se percebe hoje é uma série de atentados para controlá-la e regrá-la. O que vemos são as grandes empresas da indústria cultural buscando a todo momento formas de impedir o fluxo de vídeos e músicas pela rede, telecons, as empresas que detêm a estrutura física da Internet, atrasando pacotes do VoIP (a tecnologia usada em programas como o Skype), políticos aprovando leis que limitam os tráfegos e possibilidades da rede sob o falso manto da segurança, celebridades processando sites de conteúdo Web 2.0, como o YouTube, buscando preservar sua imagem, não se importando com os danos que podem causar à liberdade na rede. Por todo lugar vemos tentativas como essas, sendo a mais recente, no Brasil, a do projeto de lei (PLC) 89/03. Esse projeto, caso seja aprovado, determinará que os provedores de acesso devem arquivar toda sorte de históricos de navegação e comunicação instantânea, como MSN, Gmail e Orkut.

O projeto de lei (PLC) 89/03 é um exemplo típico da tentativa de controle das redes pelos governos. Porém, além disso, mostra a ignorância existente nas mentes controladoras que, ao tentar punir acabam tornando Como apontado por Sérgio Amadeu, em seu blog:

“Este artigo (PLC 89/03) criminaliza o uso de redes P2P e até mesmo a cópia de uma música em um i-pod. Ao escrever que o acesso a um “dispositivo de comunicação” e “sistema informatizado” sem autorização do “legítimo titular”, ele envolve absolutamente todo tipo de aparato eletrônico. Se a empresa fonográfica escreve, nas licenças das músicas que comercializa, que não admite a cópia de uma trilha de seu CD para um aparelho móvel, mesmo que seu detentor tenha pago pela licença, estará cometendo um crime PASSÍVEL DE PENA DE RECLUSÃO DE 1 A 3 ANOS.

A Internet é o que é hoje devido aos incansáveis esforços e a filosofia libertária da comunidade hacker, porém, essa realidade pode não existir por muito tempo, caso a guerra no mundo virtual seja perdida. Cabe então a todos nós nos conscientizarmos, educarmos e mobilizarmos a favor da liberdade na Internet. Esta foi a minha principal motivação para a migração para o software livre, pois somente incentivando a liberdade e o livre compartilhamento de informações é que podemos manter a Internet o que ela atualmente é. Digo que foi, pois não é mais a principal. Hoje eu apoio e incentivo todas as práticas de software-livre e comunidades hacker simplesmente porque os resultados são realmente bons e eficientes. Mas se você duvida do que digo, bem, baixe o Ubuntu, ou qualquer outra distribuição Linux. É grátis!

2 Comentários to “A Migração – A Rede e a Cultura Hacker”

  1. Alessio Says:

    Porra, parabéns mesmo!!! Do caralho!!!

    Abordou bem todos os aspectos do software livre: técnicos, políticos e ideológicos. Tudo isso em um texto profundo sem ser maçante e de linguagem acessível. Sem contar q é baseado em suas próprias experiências e não em algo q vc simplesmente viu, ouviu.

    Parabéns de novo!!!

    PS: Já dá pra vc devolver meu livro??? HAHAHAHAHAHAHA!!!

  2. adao jose Says:

    Caraca simplismente adorei o conteudo e a mensagem.simples de facil entendimento.Parabens

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